• Belemitas

Deus Cognoscível



Você provavelmente já deve ter ouvido aquela máxima: contra fatos não há argumentos. A ideia é de que existe um limite plausível para nossa capacidade de argumentação dentro de um debate e este limite é definido pelos fatos, isto é, nossos argumentos, por mais valiosos que sejam, não podem mudar aquilo que as coisas são. Em outras palavras, a forma como nós vemos as coisas não faz com que elas se tornem aquilo que nós gostaríamos que elas fossem.


Isso é extremamente real quando pensamos sobre Deus e possui uma agravante: o fato de que conhecer Deus é completamente diferente de conhecer o mundo ao nosso redor, ou as pessoas com as quais convivemos. Para conhece-los, utilizamo-nos dos nossos cinco sentidos e somos capazes de ter uma percepção realista – nós tocamos, ouvimos, vemos – e isso contribui para que tenhamos certeza de que a experiência que temos é real.


Conhecer Deus envolve algo completamente diferente. Não o conhecemos a partir dos nossos sentidos, tampouco podemos conhece-lo a partir de analogias de experiências tidas com outras pessoas. A Bíblia é bastante clara nesse sentido: como são grandes as riquezas de Deus! Como são profundos o seu conhecimento e a sua sabedoria! Quem pode explicar as suas decisões? Quem pode entender os seus planos? Como dizem as escrituras sagradas: ‘quem pode conhecer a mente do Senhor? Quem é capaz de lhe dar conselhos? Quem já deu alguma coisa a Deus para receber dele algum pagamento?’ Pois todas as coisas foram criadas por ele, e tudo existe por meio dele e para ele. Glória a Deus para sempre! Amém!” (Rm 11:33-36).


Diante desse versículo, percebemos que a compreensão acerca de quem Deus é está completamente além da capacidade cognitiva humana. O fato é que vivemos em níveis diferentes de cognição; mal comparando, seria como dar a uma barata a incumbência de explicar a mente humana. Neste sentido, A.W. Tozer afirma: The reason for our dilemma has been suggested before. We are trying to envision a mode of being altogether foreign to us, and wholly unlike anything we have known in our familiar world of matter, space, and time [1].


Se você ainda não percebeu isto, é bom que você saiba: Deus não é familiar à natureza humana; Ele não é um ser que possamos apreender a partir da nossa própria mente, mesmo que a desenvolvêssemos em sua completude. É muito conhecido o alerta que Paulo faz: Pois Deus, na sua sabedoria, não deixou que os seres humanos o conhecessem por meio da sabedoria deles. Pelo contrário, resolveu salvar aqueles que creem e fez isso por meio da mensagem que anunciamos a qual é chamada de louca (1Co 1:21).


O fato é que, após a queda do Ser Humano, no Éden, Deus tinha todo o direito de simplesmente nos abandonar e reinar onipotente, sem que nós tivéssemos noção de quem Ele é ou das coisas que Ele faz; mas, não foi essa a realidade das coisas que se seguiram. O que vemos, em toda a Bíblia, é um Deus que se permite ser reconhecido e conhecido por seu Povo. No Antigo Testamento, temos instruções certas a respeito de como conhece-lo: vocês me procurarão e me acharão quando me procurarem de todo coração (Je 29:19); E você, meu filho Salomão, reconheça o Deus de seu pai, e sirva-o de todo o coração e espontaneamente, pois o Senhor sonda todos os corações e conhece a motivação dos pensamentos. Se você o buscar, o encontrará, mas, se você o abandonar, ele o rejeitará para sempre (1 Cr 28:9).


O mais incrível de tudo isso é que em sua graça e amor, Deus não apenas se revelou a nós espiritualmente como tornou-se carne, habitou entre nós e deu-nos a sua Imagem, para que conhecêssemos o nosso Salvador. Por isso João inicia seu Evangelho fazendo menção à Palavra, que estava desde o princípio, por meio da qual todas as coisas foram criadas, na qual está a fonte de toda a vida. E esta palavra se tornou um ser humano e morou entre nós, cheia de amor e de verdade. E nós vimos a revelação de sua natureza divina, natureza que ele recebeu como Filho único do Pai (Jo 1:14).


Habitando entre nós, Jesus nos mostrou a natureza divina e, mais, repartiu-a conosco. Ao finalizar a Santa Ceia com os discípulos, Ele orou por todos que ainda viriam e assim pediu a Deus: E peço que todos sejam um. E assim como tu, meu Pai, estás unido comigo, e eu estou unido contigo, que todos os que crerem também estejam unidos a nós para que o mundo creia que tu me enviaste. A natureza divina que tu me deste eu reparti com eles a fim de que possam ser um, assim como tu e eu somos um (Jo 17:21-22). Pai, quero que, onde eu estiver, aqueles que me deste estejam comigo a fim de que vejam a minha natureza divina, que tu me deste; pois me amaste antes da criação do mundo (Jo 17:24).


E, após sua ascensão, enviou-nos o Espírito Santo e, por meio dEle, nós somos apresentados à verdade sobre Deus. Nas palavras do próprio Jesus, aos seus discípulos, extraímos o seguinte: Ainda tenho muitas coisas para lhes dizer, mas vocês não poderiam suportar isso agora. Porém, quando o Espírito da verdade vier, ele ensinará toda a verdade a vocês (Jo 16:12).


Entendemos, com isso, que toda a verdade divina a ser revelada em nós, o é a partir da operação do Espírito Santo. E, veja, isto não tem nada a ver com quem somos, com o que fazemos ou com aquilo que esperamos de Deus.


A grande falha que há em nós, humanos, é deixar de lado toda essa estrutura cognitiva para impregnar nossas palavras, nossos hinos e nossas posturas com um conhecimento humanizado de Deus. O grande problema está em olharmos Deus pelas nossas próprias lentes, transformando-o em um super-humano, em um ser hiper-forte, hiper-inteligente, hiper-poderoso e hiper-grande, com um hiper-amor.


Contudo, estamos completamente enganados quando assim fazemos. Paulo já nos alertou: não é de uma sabedoria deste mundo nem a dos poderes que o governam e que estão perdendo o seu poder. A sabedoria que anunciamos é a sabedoria secreta de Deus, escondida dos seres humanos, a sabedoria que o próprio Deus, antes mesmo da criação do mundo, já havia escolhido para a nossa glória (1 Co 2:6).


É essa sabedoria que precisamos buscar em nosso relacionamento com Deus e em tudo aquilo que fizermos para Ele. Estamos em uma posição extremamente privilegiada, pois fomos escolhidos para expandir a mensagem de Deus pelo mundo e isso nos traz uma responsabilidade imensa, pois devemos ser mensageiros fiéis à palavra que nos é revelada. A minha oração é para que não nos deixemos influenciar pela sabedoria humana, ou por qualquer necessidade egoísta nossa, mas que desenvolvamos um Espírito cada dia mais maduro, cujos olhos estejam cada dia mais abertos para ver as coisas espirituais e os ouvidos cada dia mais sensíveis para a voz de Deus. Seja esta palavra revelada em nossos corações aquela que vamos passar adiante através das nossas canções; seja a natureza divina revelada aquela que vamos brilhar aonde quer que colocarmos nossos pés.


[1] Tradução livre: a razão para nosso dilema já foi antes sugerida. Nós estamos tentando visualizar um modo de ser completamente externo a nós e diferente de tudo aquilo que temos familiaridade em nosso mundo, tal como matéria, espaço ou tempo. (In TOZER, Aiden Wilson. The knowledge of the holy, p. 44).