• Belemitas

Ode ao Eterno



Salmos 103:14-17: Pois ele sabe como somos feitos; lembra que somos pó. A nossa vida é como a grama; cresce e floresce como a flor do campo. Aí o vento sopra, a flor desaparece, e nunca mais ninguém a vê. Mas o amor de Deus, o Senhor, por aqueles que o temem dura para sempre.

Enquanto lia esse Salmo, logo me veio a mente a imagem de uma fina camada de poeira sendo levada pelo vento, em uma estrada vazia rumando ao horizonte.

Como aponta Davi, somos feitos do pó, frágeis como a areia que vemos se movimentar quando bate o vento e suscetíveis às mudanças decorrentes do tempo. Sua passagem é implacável e, assim como um monte de terra se espalha ao fluir de uma brisa, nossas vidas também se vão com seu mais fino soprar.


Desde o pecado original, estamos sujeitos às limitações inerentes à natureza humana, que nos conduzem em um ciclo, neste Salmo comparado ao desenvolvimento vegetal: a nossa vida é como a grama; cresce e floresce como a flor do campo. Aí o vento sopra, a flor desaparece, nunca mais ninguém a vê (Salmos 103:15-16).


Ao passo que se passa a vida, percebemos sua efemeridade e a fungibilidade dos acessórios que nela se acoplam. Pensemos em quantas amizades já ficaram para trás; quantos lugares deixamos de frequentar; quantas lembranças criadas em nossa memória nos fazem viajar por uma realidade que se foi, já distante da jornada que percorremos aqui.


Em que pese seja uma jornada longa, é fato que seja uma jornada cheia de mudanças, altos e baixos, coisas que vão e coisas que vem. Nessa loucura que é viver, nem mesmo as memórias são dotadas de eternidade; a bem da verdade, sua existência tem prazo determinado, embora incerto.


Se estou soando nostálgico, pessimista ou saudoso, não pense você que esta seja a tônica desse texto. Se fui incisivo demais, foi somente em prol do alerta de que a vida humana não é capaz de satisfazer nosso anseio pela eternidade – somos apenas uma semínima na sinfonia conduzida por Deus.


Se essa semínima tem tempo determinado para soar, por outro lado, a sinfonia a qual ela pertence é entoada para sempre e, enquanto durar o compasso do qual fazemos parte (ou seja, nossa vida), teremos esta esperança de um dia ouvi-la por inteiro.


E qual seria esta sinfonia? A sinfonia do amor de Deus – pois o amor de Deus, o Senhor, por aqueles que o temem dura para sempre (Salmos 103:15-17).


Talvez não haja descrição melhor desta realidade, senão a declaração de Billy Graham: minha casa está no céu. Eu estou apenas viajando por este mundo.


Se apenas passamos pela vida, é certo que nela esperamos aquilo que é eterno – vivemos a esperança da eternidade do amor de Deus, o momento em que para sempre estaremos com Ele.


Ora se podemos viver essa esperança, ainda que momentaneamente ouçamos somente o som de uma semínima a soar, por que se preocupar com as efemeridades da vida? A verdade é que tudo passará; tanto as coisas boas quanto as ruins – as ansiedades ou os prazeres; as tristezas ou as riquezas; a doença ou o esplendor físico. Se nos apegamos a tais fatores como se eterno fossem, então estamos perdendo a visão para aquilo que, de fato, é eterno.


As preocupações e percalços da vida terrena não podem nos aprisionar a tal ponto. Sobre elas, Jesus já garantiu seu cuidado espiritual sobre nossas vidas – é só olharmos para os passarinhos que voam pelo céu (v. Mt. 6:26-34)! Mas, de maneira alguma podem também as maravilhas e belezas desta vida cegar-nos da visão eterna – pois é uma porta estreita que nos conduz ao caminho do céu (v. Mt. 7:13-14)!


Para encerrar, reporto-me a interpretação inspirada e felicíssima do Pastor Marcelo Ferreira dos Santos [1] acerca de uma conhecida passagem bíblica. Trata-se de conversa travada entre Jesus e os discípulos após o episódio com o jovem rico. Naquela oportunidade, Pedro indaga o Mestre: nós deixamos tudo e seguimos o senhor. O que é que nós vamos ganhar? (Mt. 19:27). E, em sua resposta, Jesus diz: e todos que, por minha causa, deixarem casas, irmãos, irmãs, pai, mãe, filhos ou terras receberão cem vezes mais e também a vida eterna (Mt. 19:29).


No contexto desse texto, a resposta de Jesus pode ser dada da seguinte forma: todos que, por minha causa, deixarem as efemeridades da vida, receberão a eternidade. De fato, se posicionarmos nossos passos nas pegadas de Jesus, o Pastor Marcelo aponta: ainda que deixemos nossas casas, receberemos cem vezes mais conforto no amor de Jesus; ainda que deixemos nossos pais e mães, receberemos cem vezes mais carinho em Jesus; ainda que deixemos nossos filhos, receberemos dEle cem vezes mais cuidado; ainda que deixemos nossas terras, teremos cem vezes mais segurança nas Suas mãos... Tudo isso ainda durante a vida efêmera até que um dia, por fim, receberemos a vida eterna.


Com isso não quero dizer que não devemos viver uma vida plena! Longe disso!!! Minha conclusão é de que a plenitude de nossa vida deve estar ancorada na esperança da eternidade e não na fugacidade da efemeridade.


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[1] Mensagem pregada no Culto de Libertação na Igreja Assembleia de Deus – Ministério do Belém – Sede, no dia 15 de fevereiro de 2018.