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Pontes de(a) Verdade

Atualizado: 9 de Fev de 2019


The World is over-armed and peace is underfunded (O Mundo está super armado e a paz está subfinanciada).

A frase acima é atribuída a Ban Ki-Mon, Secretário-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) e revela uma verdade inconveniente acerca do mundo.


A quem diga que essa verdade não seja assim tão nova, e que a História da Humanidade é a História do conflito do Homem contra o Homem, em uma ânsia constante pelo poder e pela dominação.


Que a guerra sempre esteve nas páginas de nossos livros não podemos negar. Mas, há algo que chama atenção na realidade contemporânea e torna os dias atuais um pouco mais assustadores do que os de outrora. Em que pese o Secretário-Geral se refira a questões estritamente militares, vejo que a frase citada possa ser transportada a uma guerra travada todos os dias no campo das ideias, da qual cada ser humano é soldado.


Enquanto grandes líderes mundiais trocam farpas nucleares e expoentes nacionais discutem jurisprudências afiadas, nós, pessoas comuns, encontramo-nos cada vez mais extremados em um contexto de intensa polarização de ideias (ainda que inconsciente). Se nas guerras tradicionais as armas eram metralhadoras, tanques e granadas, hoje esse caráter super bélico está relacionado às ideias que se formam em nossas mentes. Acredite ou não, mas, no contexto brasileiro, palavras, posicionamentos e opiniões têm sido mais destrutíveis do que qualquer outro armamento, pois exterminam do ambiente qualquer crítica construtivista para um país melhor.


Assim, como em um cabo de guerra, formamos extremos opostos, cada qual forçando a prevalência de seu grupo e de suas ideias: golpe x impeachment; prisão x liberdade; descriminalização das drogas x criminalização; nu artístico x pedofilia; coxinha x mortadela; Messi x Cristiano Ronaldo; e por aí vai... Nesses embates, costumamos escolher lados e nos armar de argumentos que possam alimentar os monstros e mocinhos que construímos em nossas histórias.


Por mais que nos consideremos a geração mais conectada e mais aberta a novas ideias, a realidade nos mostra que caminhamos para o completo oposto e a cada dia estamos mais ensimesmados em ideias prontas, sem nem parar para refletir adequadamente em seus significados.


O pior: vivemos nas trincheiras das redes sociais, onde se prolonga ainda mais este abismo enorme entre os lados opostos da guerra. Nesse campo de batalha, o debate há muito tempo foi substituído pelo combate e o único valor que encontramos nas palavras do “inimigo” é o desvalor que podemos atribuir a elas quando contrárias aos nossos próprios ideais. Tornamo-nos cada vez mais adeptos de posições pré-consolidadas, verdadeiros pré-conceitos formados pelas nossas próprias crenças na verdade proclamada pelo grupo que integramos.

Verdadeiramente, cavamos o abismo, escondemo-nos nas trincheiras polarizadas de nossos pensamentos e pouquíssimos de nós têm coragem e disposição para deixa-las.

Há pouquíssimos interessados em abrir mão de suas posições protegidas para construir pontes. Pontes que sejam de verdade, isto é, não imaginárias ou pressupostas a partir da conectividade do mundo; pontes que sejam da Verdade, isto é, que estejam a serviço do Reino e dispostas a negociar a paz e utilizar as palavras para promover o Bem Social.


Em uma sociedade que se extrema em grupos e se arma de palavras para defende-los a todo custo, sejamos os primeiros a se posicionar em favor do debate sadio, que olhe para todos os lados e busque a verdade do Evangelho e a vontade de Deus para o nosso país.


Não podemos nos esquecer que Jesus também viveu em uma sociedade polarizada, formada por grupos cegos que visavam tão somente defender seus ideais (fariseus, saduceus, samaritanos, entre outros). E quantas vezes Ele foi a voz de conciliação para os oprimidos; quantas vezes Ele ofereceu o contraponto ao extremismo; e quantas vezes Ele mostrou com ações que seu Reino se constrói com amor.


Diante de extremistas que insistiam que o sábado era um dia a se guardar, Ele curou. Diante de uma mulher confusa acerca da maneira correta de adorar, Ele mostrou a mais simples. Diante de líderes religiosos que o queriam derrubar, Ele reconstruiu-se em três dias – e, assim, reconstruiu-nos junto dEle.


A verdade é que por onde Jesus passou Ele pregou a Paz e ofereceu uma alternativa à cultura podre de um mundo fixado em ideias que mais traziam o Mal do que o Bem; ideias que não contribuíam para um debate sobre a Fé e apenas colocavam-na como um instrumento de combate aos que mais necessitavam dela.


Em dias marcados por extremismos e posições polarizadas sobre os mais diversos temas, não sejamos nós mais um polo a se distanciar; não fiquemos presos às nossas próprias trincheiras. Tomemos coragem, estudemos a verdade e busquemos a Vontade de Deus para construirmos pontes que levem a Jesus.


Que neste mundo onde as ideias são as principais armas de combate, escolhamos estar abertos à sabedoria divina como fonte inspiradora para nossos passos humanos e que sejamos capacitados para estabelecer debates acerca da Verdade Cristã para a vida e para o país. Dessa forma, por onde andarmos, espalharemos paz e seremos embaixadores de Cristo para melhor equacionar o desequilíbrio de um mundo super armado, porém deficitário de atitudes pacificadoras.