• Belemitas

Por que 2020?

Atualizado: Fev 3



Desde que Deus virou para Adão e disse para o homem dar nome a cada ser vivo, nós desenvolvemos essa necessidade compulsiva de significar as coisas. Uma vez trazidas à existência, todas elas perfilam-se diante dos sentidos humanos e são conduzidas pelas estradas neuronais, impulsionadas em sinapses nervosas que as conduzem até uma central de significação, mais conhecida como nosso cérebro. Na máxima científica de que nada se perde, nada se cria, tudo se transforma, está um balde transbordante chamado Universo, pronto para ser explorado em cada uma de suas particularidades, do neutrino ao buraco negro, passando por misteriosas aproximações, como o Amor, a Liberdade e a invenção do crocs.


O arcabouço de conhecimento humano, de fato, impressiona, encanta. Em 2011, uma pesquisa estimou em 1,8 zettabytes o volume de dados armazenados no mundo. O número é tão espantoso que precisa ser traduzido para uma linguagem mais trivial. Pois bem, 1 zettabyte equivale a 1.000 exabytes que, por sua vez, correspondem a 1.000.000 petabytes. Até aqui não ajudou muito, não é? Calma... Vai ficar mais fácil... 1 petabyte é equivalente a 1.000 terabytes (e você aí achando que seu computador de 1 tera tem memória infinita). Toda essa volta nos leva a conclusão de que 1 zettabyte é igual a 1 bilhão de terabytes. Portanto, todas as informações armazenadas em 2011 estariam “facilmente” contidas em 1,8 bilhão de computadores com memória de 1tb. Para tornar o número ainda mais espantoso: trata-se de 1 sextilhão de bytes (1021 bytes). Esse mesmo estudo, de nove anos atrás, estimou que em 2020 já teríamos alcançado 35,2 zettabytes de informação acumulada (isso porque, na época, o Instagram tinha apenas um ano de vida, o Corinthians não tinha estádio nem Libertadores, e eu e você éramos 10 anos menos inteligentes). Aliás, pense em seu conhecimento a nove anos atrás e imagine o Universo em evolução por todo esse tempo. Assustador?? Acalme-se, simplesmente somos nós tentando significar as coisas.


Assustador mesmo é terminar o ano de 2020 constatando que em meio a todos estes sextilhões de bytes de informação e conhecimento, há muitas perguntas misteriosas que carecem de resposta. Afinal, se algo nos movimentou no ano que está findando foram as perguntas. Fomos apresentados a um grande e estarrecedor ponto de interrogação chamado “Pandemia”. Não adianta negar, nem se fazer de desentendido... Em algum momento, no mais profundo interior da sua quarentena forçada, você (assim como eu) se perguntou o porquê das coisas, olhou para dentro de si e não entendeu nada, olhou para o mundo lá fora e compreendeu menos ainda. Você até explica o vírus, denominado Sars-CoV-2, oriundo de uma família de vírus com estrutura de coroa, causador de grave síndrome respiratória... Mas isso não significa explicar a Pandemia. Você até explica que o mundo globalizado permitiu conexões mais fluidas entre os países e, consequentemente, um avanço exponencial do contágio e da crise... Mas, isso também não explica a Pandemia. Da mesma forma, você é capaz de formular que a maneira mais lógica de frear a contaminação é evitando o contato social, motivo pelo qual se afastou de familiares e amigos por alguns meses... Mas, isso definitivamente não explica a Pandemia. Enquanto a boa ciência desvenda significados para 2020, contabilizando bytes na nossa bolsinha do conhecimento, perguntas obscuras, existenciais e extraordinárias ainda carecem de significado objetivo. Se há uma certeza diante de tudo isso é que terminamos o ano com mais incertezas do que começamos. Contudo, isso não nos torna mais ignorantes.


A verdade é que você e eu não estamos sozinhos nessa cruzada obstinada pelo significado de todas as coisas. Grandes contribuintes para que chegássemos aonde estamos também expressaram ter alcançado um ponto cego na caminhada do saber. Foi Shakespeare quem, tendo desvendado grandes epopeias das emoções humanas, admitiu haver mais entre o céu e a terra do que a nossa filosofia poderia sonhar. Que dizer, então, do famoso bordão “só sei que nada sei”, cunhado por aquele considerado por muitos o maior dos filósofos da Antiguidade, cujo método (dialética) consistia justamente em fazer perguntas e mais perguntas até que todos ficassem sem respostas? De fato, existe um vácuo incômodo na existência humana, em que nosso chamado ao conhecimento esbarra na inevitável limitação cognitiva.


Uma forma trapaceira de lidar com essa inconveniência chama-se acaso. Expressa que, para além dos zettabytes de conhecimento que já produzimos, haveria uma série de fatores aleatórios se movimentando, bagunçando relações de causa e efeito e pipocando diante de nós coincidências, destinos e sortes. Na ausência de um responsável, por que não culpar as estrelas?


O acaso é o atestado da nossa intransigência com o “não saber”. Na fissura de querer explicar todas as coisas, construímos um conceito que é tudo, menos explicável. Afinal, se há algo de impossível significação, é o acaso. Ele até acomoda algumas mentes menos exigentes, porém, ao final do dia, atiça ainda mais combustível no fogo da pretensão científica da humanidade.


Fogo que queima minha mente ao passo que vou terminando esse texto e percebo que, igual a um cachorro correndo atrás do próprio rabo, dei voltas e voltas sem responder as minhas e as suas perguntas sobre 2020.


Afinal, por que Deus foi falar para Adão dar nome a tudo? Será que Ele mensurou as consequências a longo prazo daquela singela tarefa? Só posso assumir que sim, pois nos pingos de coisas que significamos, sabemos que Deus é eterno e onisciente.


Seria, então, tudo um truque de mágica divino?


Quem sabe aquele chamado recebido por Adão fora a sacada de mestre dEste Ser Onisciente que de antemão calculara nosso afã de significar todas as coisas e percebera que passaríamos toda a História nessa luta incessante, até concluirmos que o significado de todas as coisas não está, definitivamente, nas próprias coisas.


Tamanha perspicácia só poderia vir de alguém que sabe todas as respostas... Ou, ainda melhor, que nos promete plena satisfação para afastar as perguntas.


Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima. Não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou. Aquele que estava assentado no trono disse: “Estou fazendo novas todas as coisas!” E acrescentou: “Escreva isto, pois estas palavras são verdadeiras e dignas de confiança”. Disse-me ainda: “Está feito. Eu sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim. A quem tiver sede, darei de beber gratuitamente da fonte da água da vida. O vencedor herdará tudo isto, e eu serei seu Deus e ele será meu filho. Apocalipse 21:4-7, NVI.


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