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Reformados para reformar



“Nós somos salvos pela graça.” “O justo viverá pela fé.” “Vivemos na época da graça.” “Não preciso do meu próprio esforço para alcançar a salvação eterna.”


Frases como essas soam extremamente comuns aos cristãos de nossos dias. Principalmente àqueles que nasceram em casa cujos pais já eram evangélicos. São termos com os quais nos habituamos e, justamente por isso, por vezes não damos o devido valor.


Para Martinho Lutero foi bem diferente. Nascido num lar cristão em Eisleben, região germânica, em 10 de novembro de 1483, Lutero era filho de um minerador de cobre. Com 1 ano de idade foi para Mansfeld onde seu pai foi trabalhar. Mesmo analfabeto, seu pai esforçou-se para prover ao filho a educação que nunca teve. Assim, Lutero foi para Eisenach, centro intelectual da época, aos 17 anos, onde tornou-se mestre em Artes, doutor em Filosofia, e iniciou o estudo do Direito. Deixou, porém, a faculdade de Direito para estudar Teologia, após uma experiência sobrenatural que o levou a questionar qual seria o futuro de sua alma se morresse naquele momento.


Lutero teve uma educação rígida e conservadora, baseada na religião. Seus pais eram cristãos bastante devotos e o menino “cresceu” na Igreja. Entretanto, as frases citadas no início do texto estavam muito longe de serem conhecidas por ele. Cresceu ouvindo que Deus era bravo e vingativo.


Martinho Lutero nasceu numa época de forte institucionalização da Igreja associada a um cristianismo popular repleto de elementos de magia, necessidade de “fórmulas” e apego a relíquias. A Igreja exercia uma forte influência política e social. Além disso, recebia alta carga tributária que a sustentava economicamente. Desde o século VIII, apenas o clero tinha acesso às Escrituras e a leitura da Bíblia pelos leigos era proibida.


Pregava-se que a salvação era alcançada pelas obras e que eram necessárias penitências e esforço humano para se chegar a Deus. A partir do século XVI, a venda de indulgências para se obter perdão foi difundida. Aqueles que questionavam a Igreja sofriam fortes consequências, desde a excomunhão até a morte. Exemplos disso foram os pré-reformadores, como John Huss, que foi executado em 1415 numa fogueira por não negar suas ideias contrárias às da Igreja. Conta a história que antes de ser executado pronunciou as seguintes palavras ao ouvido de seu carrasco: “Hoje vocês assam um ganso, porém daqui a cem anos vocês irão escutar um cisne cantando. Vocês não irão queimá-lo, mas terão que escutá-lo” (Huss significa ganso na língua tcheca).


Nesse contexto de clericalização e busca da salvação por obras, Martinho Lutero tentava a qualquer custo salvar-se. No mosteiro de Santo Agostinho em Wittenberg, onde estudava, apesar de ter se tornado doutor em Teologia e sacerdote, vivia em crise. Tentava pelas suas próprias forças alcançar a salvação. Mas a falta de paz e a aflição o dominavam. Orava muitas horas por dia, além de buscar a autorreflexão e confissão. Foi para Roma em busca de relíquias, mas a inquietação dominava sua alma e seus pensamentos. Praticava também a mortificação (prática de sacrifício físico buscando a salvação), mas nem o autoflagelo era capaz de trazer-lhe paz.


Até que um dia deparou-se com o texto de Romanos 1:17: “Porque nele se descobre justiça de fé em fé, como está escrito: Mas o justo viverá pela fé”. Lutero, impactado pela Palavra de Deus, passou a entender que a graça de Deus era suficiente para a redenção dos pecados. A paz que ele tanto buscava por seu sacrifício próprio foi finalmente encontrada no sacrifício de Jesus.


A partir de então, o cisne da profecia de John Huss, passou a pregar sobre sua recente descoberta que havia mudado por completo sua vida. Durante os debates das aulas que ministrava, Lutero elaborou as 95 teses, que seriam afixadas na porta principal da Igreja de Wittenberg. Elas mostravam a incoerência das doutrinas e dogmas da Igreja com as verdades bíblicas. Importante frisar que a intenção dele não era dividir a Igreja, mas fazer com que tais incoerências fossem revistas à luz da Palavra de Deus.


Entretanto, a Igreja não aceitou suas colocações e ele foi excomungado. Ajudado pelo príncipe Frederico III, escondeu-se num castelo, onde iniciou a tradução da Bíblia para o alemão, que seria o primeiro livro publicado pela imprensa. Em 1529 grande parte da Alemanha declarou-se protestante, graças ao encontro com a graça e verdade que Lutero teve ao ler a palavra de Deus.


As frases que nos soam tão comuns rotineiramente foram impactantes na vida de Lutero. Ao deparar-se com a graça de Cristo, Lutero percebeu que nada adiantava o auto sacrifício, se o sacrifício maior havia sido feito por Jesus na cruz do Calvário. Que possamos nos “desacostumar” com essa verdade e todos os dias sermos impactados pela graça salvífica de Jesus. Que essa realidade faça com sejamos constantemente reformados, para reformar o mundo que nos cerca à luz da Palavra de Deus.





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