• Belemitas

Sobre aquele sábado.

Atualizado: 12 de Jul de 2019



No último devocional que postamos, abordei o desafio de viver o intervalo temporal que separa a Palavra Dita por Deus da Palavra Manifesta no Mundo Real. Utilizei como parâmetro a última frase de Jesus na cruz, “está consumado”, dita em uma sexta-feira, porém, somente compreendida em sua complexa completude no domingo pela manhã. Entre as sextas-feiras e os domingos, há sábados carregados de temor e incertezas; entre a palavra dita e a palavra manifesta, há uma imensidão de expectativas turbinando nossa mente e coração. No texto dessa semana, pretendo me aprofundar acerca da vivência deste sábado tão comum em nossas vidas, em que as palavras ditas por Deus são “apenas” e ainda verdades sobrenaturais.


Desde logo, adianto que a abordagem que pretendo é sob uma perspectiva humana. Explico: aqui não vai nenhum questionamento acerca das promessas feitas por Deus, tampouco sobre a certeza de sua fidelidade. Como diz a Bíblia, Deus não é homem para que minta, nem filho de homem para que se arrependa (Números 23:19, NVI). Mas, nós somos homens e, de vez em quando, as mentiras e arrependimentos deste tempo presente nos confundem quanto à realidade e infalibilidade divina.


Por essa razão, costumamos cometer um grande equívoco consubstanciado em vivenciar palavras sobrenaturais com atitudes naturais.


Somos limitados pela nossa natureza humana e isso implica em uma redução drástica de nossa capacidade de percepção do divino. Imagine-se andando por uma avenida beira-mar, diante de uma exuberante paisagem, dotado apenas de uma visão monocromática em 2-D (segunda dimensão). Esses somos nós diante da experiência sobrenatural. Deus nos dotou de cinco sentidos que servem tão somente para nossas interações terrenas. Além disso, Ele nos limitou a um determinado espectro espaço-temporal – não podemos viver fora do aqui e do agora. Pois bem, diante de tudo isso, é impossível nos relacionarmos com palavras sobrenaturais, pois elas vão além de tudo quanto estamos capacitados para vivenciar através de nossa humanidade.


Mas Deus, que é infinito em graça, presenteou-nos com um Espírito e criou através dele a possibilidade de relacionamento com seu Espírito Santo. Daí que mesmo em meio às nossas limitações humanas, podemos ser inseridos em uma realidade sobrenatural por meio de experiências com Deus. Este é o grande milagre: que o Deus perfeito, eterno e onisciente possa revelar sua dimensão a seres falhos, rasos e finitos. Quando Ele assim procede, mostra-nos que há mais na vida do que aquilo que podemos ver, tocar, ouvir ou saborear; revela-nos que existe uma eternidade que perdura sobre nosso tempo e um lugar que está além do nosso Universo. Suas palavras moram ali e são reais sim. Quando somos inseridos em seu Projeto de Eternidade, passamos a compreendê-las por meio de atitudes sobrenaturais. Exemplos dessas atitudes são a fé e a esperança.


No devocional publicado neste blog em 18 de maio de 2019, Myriã Alves abordou o tema “Esperança e Fé”. Ela observou o quanto vivemos desesperançosos ultimamente e como o cenário de guerras, crises e tragédias contribui para que nossa realidade seja cercada por “fortalezas opressoras”. Porém, utilizando-se do exemplo de Abraão, Myriã nos mostrou que mesmo em meio a um cenário naturalmente perdido é possível viver experiências sobrenaturalmente fantásticas.


A promessa feita a Abraão pairava como palavra dita por Deus em uma realidade de infertilidade e velhice. Porém, foi apreendida com fé e esperança: Abraão, em esperança, creu contra a esperança (Romanos 4:18, primeira parte). Olhar para as estrelas do céu significava vivenciar palavras sobrenaturais com atitudes também sobrenaturais. Foi o que Abraão fez. Tempos depois, deu-se a materialização da promessa – o velho, então, pôde tocar, ver, ouvir, beijar e segurar as palavras de Deus, que se formaram em um pequeno bebê chamado Isaque.


Viver com fé e esperança é sair fora da caixinha de nossa humanidade para receber o sobrenatural antes mesmo dele se tornar natural.