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Todos precisamos de um domingo de Páscoa.



Um feriado cheio de significado.


A primeira Páscoa aconteceu em meio a uma grave crise social no Egito Antigo. Esta civilização, que vivia o apogeu de seu Império, desenvolvera-se a partir de técnicas militares inovadoras e uma numerosa mão de obra escrava. Agora, porém, o mesmo povo hebreu que constituíra boa parte desta força de trabalho (Êxodo 1:1-12) rebelava-se sob o comando de Moisés, pressionando o Faraó Ramsés II por libertação. Nove pragas já haviam castigado duramente a sociedade egípcia, mas o grande líder permanecia obstinado em não ceder ao pedido dos hebreus. Após as frustradas tentativas de negociação entre Moisés e Ramsés II, Jeová anuncia a décima e derradeira catástrofe: na calada da noite, todos os primogênitos egípcios seriam mortos. Logo em seguida, Deus ordena a Moisés a instituição da Páscoa.


Aquele seria um momento marcante para a comunidade de Israel; era, efetivamente, o início de sua identidade como Povo Escolhido de Deus. O Senhor determinou que aquele fosse o primeiro mês do ano para os hebreus. No décimo quarto dia, um cordeiro seria sacrificado por todas as famílias de Israel. As portas de suas casas deveriam ser ungidas com o sangue do animal, como sinal de proteção contra o martírio que acometeria os egípcios – casas marcadas seriam poupadas. Então, as famílias se reuniriam em torno da mesa para comer a carne do animal com pães asmos. Era a última refeição em território inimigo. Disse Jeová: “Ao comerem, estejam prontos para sair: cinto no lugar, sandálias nos pés e cajado na mão. Comam apressadamente. Esta é a Páscoa do Senhor” (Êxodo 12:11).


Cerca de 1300 anos depois, um grupo de doze homens se reúne em um salão alugado no coração de Jerusalém para comemorar o feriado. Comem com pressa, mas não apressadamente. Sentado ao centro da mesa, o Mestre discursa e, assim, dita o ritmo da reunião. Ele declara ser esta sua última Páscoa. Todos, com exceção dEle, parecem amedrontados; um peso de morte carrega o ambiente. Por isso, não se furtam de lembrar do real significado daqueles dias: a morte dos primogênitos, a libertação da escravidão, o início da peregrinação para a Terra Prometida. Cantam um hino e, então, saem depressa.


Pessach, o “passar por sobre”


O significado de Páscoa alude à palavra hebraica Pessach, cujo significado literal é “passar por sobre”. Na cultura judaica, associou-se à passagem do anjo destruidor sobre os primogênitos do Egito, dando início à libertação do povo hebreu após os séculos de escravidão.


Naquela noite sombria em Jerusalém, Jesus Cristo celebrou a última Páscoa. Entregando sua vida como Cordeiro definitivo, Ele foi a nossa passagem da morte para a vida; das trevas para a luz; do pecado para a santificação. Por meio de Cristo, fomos libertos da escravidão eterna e postos a correr em direção à Nova Jerusalém, solução definitiva de comunhão com o Deus Pai.


Passagem pelo sofrimento.


Da saída apressada dos hebreus do Egito, sucedeu uma longa peregrinação pelo Deserto. Tempos difíceis, porém, de formação da identidade de Israel e de conhecimento acerca de Jeová. Leis e mandamentos, milagres e maravilhas, fundiam-se em uma jornada épica em direção à promessa de uma terra em que mana leite e mel.


Após deixar o salão alugado, o Mestre experimentou o maior dos sofrimentos. Tomou para si as nossas dores; levou sobre si os nossos pecados. No jardim da oração, lutou tão angustiante batalha espiritual que seu suor emanava como sangue. Ali mesmo foi preso. Injustiçado por uma multidão encabrestada e um governador complacente, foi condenado à execução numa cruz. Passou por intensa tortura física e psicológica; foi coroado com espinhos, incitado a livrar-se daquele destino cruel. Carregou o madeiro pelas vias até o lado de fora da cidade, onde foi crucificado ao lado de dois prisioneiros. A morte foi adentrando seu corpo de forma lenta e agonizante, causando-lhe dores, fraqueza e sede, mas não fincou nEle seu aguilhão. Quando chegou a hora, Ele próprio entregou o Espírito ao Pai. Já que a morte não era capaz de vencê-lo, Ele entregou a própria vida; Nossa Páscoa passou por cima da morte. Coincidência ou não, a palavra grega para sofrimento é páscho.


O destino de glória.


Páscoa é uma festa incomum, que tem origem no sofrimento. Da dor dos séculos de jugo egípcio à dor das dores da Paixão de Cristo.


Mas, ao mesmo tempo, uma festa cujo nome assenta importante verdade: a passagem pela dor aperfeiçoa-nos para um destino de glória.


Se na sua Última Páscoa Jesus inaugurou a ceia para memorial de seu sacrifício, lembremo-nos todos de que foi pelo sofrimento que Ele alcançou a mais alta posição, para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para a glória de Deus Pai (Filipenses 2:10-11).


Pois, de igual forma que ao Êxodo sucederam os tempos difíceis de deserto, ao deserto sucedeu o ingresso na Terra Prometida. E, assim como à ceia no cenáculo sucedeu o caminho para a cruz, à cruz sucedeu o domingo de manhã.

Todos precisamos de um domingo de Páscoa.



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